O Mal é visto como ilusão. Essa perspectiva é encontrada em conceitos monistas e panteístas. A tensão entre Deus e o mal é resolvida pela negação do mal. A cosmovisão hindu (ensinos Vedanta), Zenão (336-274 a.C.) e Spinoza (1632-1677) são exemplos desta perspectiva. Spinoza¹, por exemplo, chega a afirmar que o mundo parece cheio de mal apenas porque é visto de uma perspectiva humana estreita e errônea. Da perspectiva divina, porém, o mundo forma um todo necessário e perfeito. A dificuldade dessa posição é provar que os sentidos não merecem confiança alguma, visto que eles apontam para a realidade objetiva do mal. Além disso, os defensores dessa perspectiva precisam responder por que tal “ilusão” é tão comum e se mostra persistente na história humana? Que conhecimentos nos levam a tal conclusão? Seria tal conclusão uma ilusão também?
Alguns Negam a Existência de Deus
Essa é a perspectiva do ateísmo. É a negação da realidade de Deus. Os ateus opõem-se diretamente aos “ilusionistas”. Afirmam a realidade do mal com base nos sentidos e negam a realidade de Deus, cuja existência é incompatível com o mal. O pensamento ateísta sistematizado desenvolveu-se nos últimos dois séculos de história da filosofia ocidental, fruto do racionalismo. Os principais argumentos ateístas são:
1) Deus e o mal são mutuamente excludentes: se o mal existe, logo Deus não pode existir;
2) Se Deus existisse, ele não seria Deus propriamente dito, pois carece de bondade por permitir o mal;
3) Se Deus existisse ele não seria Deus propriamente dito, pois carece de poder visto que permite o mal.
Essa perspectiva é encontrada no budismo que pressupõe uma alienação entre o homem e o universo. O universo é impessoal e opera por causa e efeito. Não existe a figura de Deus, o sofrimento decorre da vontade humana e a sua solução se dá de maneira individual e existencial. Por isso o budista anseia pelo estado impessoal no nirvana. Esse pessimismo também encontra exemplos no pensamento grego clássico. Hegesias de Cirenaica ensinava ser a vida sem valor e que o único bem, que nunca seria alcançado, seria o prazer. Todavia esse pessimismo não marca o pensamento helênico propriamente dito que, de modo geral, acreditava na vitória sobre o mal por meio da virtude e da sabedoria.
É no pensamento europeu contemporâneo que encontraremos um exemplos dessa posição: Arthur Schopenhauer (1788-1860). Há também filósofos existencialistas ateus que enfatizam o absurdo da realidade, vendo o homem como um ser sem saída. Os principais são Jean Paul Sartre (1905-1980) e Albert Camus (1913-1960), famoso por sua obra “A Peste”. Schopenhauer cria que a realidade última é a cega vontade irracional de viver que a todos impulsiona. Tal vontade transcendental é essencialmente má, particularmente pelo fato de haver criado o nosso corpo com desejos que não podem ser satisfeitos. O sofrimento é causado pelo desejo incessante que nunca pode ser plenamente atendido. A dor e a ilusão são inevitáveis. A maior tragédia humana é o fato de ter o homem nascido.
O ateísmo e o panteísmo também precisam explicar coerentemente a origem e a natureza do mal. O Panteísmo afirma Deus e nega o mal. O ateísmo afirma o mal e nega Deus. O problema do teísmo é afirmar a existência de Deus e do mal. Os panteístas ignoram o problema do mal o chamando de ilusão.
O ateísmo não pode oferecer nenhuma definição lógica de mal sem apelar para um padrão último de bem.
Que é o mal?
Quando Deus criou tudo, disse que todas as coisas da sua criação eram boas. (Gn 1.4; 1.10; 1.12; 1.18; 1.21; 1.25; 1.31)
O mal pode ser real sem ser uma substância, isto é, o mal é a ausência ou perda real de algo que deveria estar presente. A cegueira não é uma substância, ela é a falta real da visão. Uma pessoa cega carece de integridade física, e nós enxergamos essa deficiência física como má ou negativa porque supostamente todos devem ver. Uma pessoa não é moralmente má porque não enxerga. Para um indivíduo ser moralmente mal , ele deve ter carência de integridade moral ou bondade. O mal, portanto, é a ausência ou a privação de algo que deveria estar presente, mas não está.
Quando as pessoas exercem o livre arbítrio, a capacidade de fazer uma decisão não compulsória entre duas ou mais alternativas, elas realizam seu potencial para o bem ou para o mal.
O mal moral pode ser entendido como a relação corrompida entre dois ou mais seres humanos – uma relação que não é o que deveria ser. Para que o mal moral exista, o agente moral e a lei moral também devem existir.
Para resumir, consideramos o mal a ausência real ou privação do que é bom. O mal não é uma substância. O mal aparece quando o bem não está onde deveria estar. O mal não existe em si ou por si mesmo. O mal só pode existir em algo como corrupção do que deveria estar ali. Em termos relativos, o entendimento corrompido da natureza humana (quem somos) e a rejeição das obrigações morais (como devemos nos comportar) são as causas primárias do que chamamos mal.
Deus criou o mal?
Como cristãos teístas, cremos que o maior bem em toda a realidade é Deus. É o amor de Deus que traz integridade e santidade à vida humana. Ao contrário, o maior mal que alguém é capaz de experimentar é estar separado dessa relação de amor com Deus. O verdadeiro amor é sempre persuasivo, nunca coercitivo. Portanto, o componente essencial de qualquer relacionamento de amor, até o relacionamento com Deus, é a liberdade.
O Deus da bíblia revelou na criação que este mundo, com criaturas livres, capazes de aceitar ou rejeitar seu amor, não é o mundo melhor, mas é o melhor modo para o melhor mundo possível – o céu.
Deus criou a liberdade como uma coisa boa, todavia o mal pode surgir dessa coisa boa. Portanto, Deus não é o autor direto do mal, ele criou o potencial para o mal quando criou criaturas livres, o que também lhes faz possível experimentar o seu amor (o bem maior).
Um relacionamento de amor deve deixar aberta a possibilidade de o amor ser rejeitado – e, portanto, o mal ser escolhido. Quando as pessoas rejeitam o amor de Deus, percebem o mal potencial dentro delas mesmas, o que afeta todos os outros relacionamentos nos quais elas entram.
Se o pecado (uma espécie de mal) se define essencialmente como a rejeição do bem que deveria existir (neste caso o amor de Deus), é impossível para Deus ter criado um mundo onde as pessoas fossem livres e o pecado não fosse possível. Se a Salvação se define como Deus oferecendo livremente às pessoas um caminho de volta para a relação de amor com ele depois de terem rejeitado a relação com o pecado, e se o amor requer livre escolha, também é impossível salvar as pessoas contra a vontade Deus deter o mal é necessário eliminar essa capacidade: nossa livre escolha. Mas a eliminação de nossa livre escolha significaria que não mais poderíamos experimentar o bem maior – o amor divino. Se Deus nos impedisse de ter a capacidade de experimentar o bem maior seria o mal maior. A questão real, portanto, é: “queremos de fato que Deus suprima nosso livre arbítrio”.
O que estamos tentamos mostrar é que quase todos nós, se não todos, nos preocupamos com o mal produzido pelas escolhas livres que os outros fazem, não com o mal que ocorre em conseqüência de nossas próprias escolhas.
No capítulo 13 de Lucas, Jesus adverte quanto ao perigo iminente que enfrentariam se não reconhecessem e não se preocupassem com o mal no próprio coração. Em essência, Jesus disse: “o mal que está no mundo os perturba de fato? Se vocês estão perturbados com o mal, comecem com o mal que está bem próximo de vocês – o mal em seu próprio coração. Deixem o resto do mundo com Deus e fiquem mais preocupados com seus próprios modos maus e as conseqüências que vocês enfrentarão se não os confessarem e não se voltarem para Deus”. Se quisermos ver Deus impedir o mal, devemos pedir-lhe para começar em nós.
Qual é a finalidade do mal e do sofrimento?
Quando Lewis reconheceu que o mundo era injusto, foi forçado a pressupor um padrão de justiça que está além do mundo. O mesmo princípio aplica-se à conclusão do rabino Kushner. Para dizer que Deus é imperfeito, Kushner deve ter presumido um padrão de perfeição além de Deus. No entanto, ele nega existir o padrão que alega ser perfeito.
Teorizar a respeito da dor é uma coisa quando estamos bem, mas é outra totalmente diferente quando a sofremos.
Não saber os propósitos do mal e da dor implica que Deus não tem propósitos bons para as pessoas que sofrem.
Uma distinção importante
Nosso desconhecimento de todos os bons propósitos que Deus tem para a dor e para o sofrimento não significa que não haja bons propósitos.
Se Deus é todo- bondoso e onisciente, ele deve conhecer os bons propósitos para a dor e para o sofrimento no mundo. Não segue disso que o mal demonstra que Deus é imperfeito e limitado, segue que nós somos imperfeitos e limitados.
Alguma dor física é necessária para o desenvolvimento do caráter. Por exemplo, a compaixão não se atinge sem a miséria, nem a paciência sem a tribulação. Não se adquire coragem sem o temor, e a persistência é provocada pela privação. Em resumo, algumas virtudes seriam totalmente ausentes sem o mal físico. A edificação de caráter só acontece com aflição.
Das quatros virtudes cardeais (sabedoria, coragem, domínio próprio e justiça), C. S. Lewis considerava a coragem uma forma não somente de cada uma das outras três, mas também de todas as virtudes. A coragem seria desnecessária sem a presença do mal ou do perigo. Consequentemente, o bem maior do desenvolvimento da virtude é impossível sem a presença do mal. Pode parecer um preço alto para pagar, mas quando o produto final surge em forma de integridade pessoal e de caráter, vale o preço da dor suportada.
A decisão habitual de preferir vícios como o orgulho, ira, ciúme, avareza, glutonaria, luxúria e preguiça são manifestações da recusa de dominar os impulsos físicos e psicológicos. Deixar de aprender a desenvolver e usar o domínio próprio resultará na redução do interesse pela virtude e do desejo de cultivar uma boa personalidade. Ensinar as crianças a lidar com esses maus hábitos em casa, na escola e na sociedade implica um nível pessoal de sofrimento chamado disciplina. As punições são quase sempre necessárias para ensinar os indivíduos que eles estão andando sobre bases moralmente perigosas. Somente por meio da dor da disciplina uma criança pode aprender o domínio próprio.
Um pouco de dor é necessária para nos advertir de um perigo iminente maior. A dor é usada como sistema de advertência para nos ajudar a permanecer vivos.
Dor como benção em vez de aflição.
Um pouco de dor é necessário para nos ajudar a evitar sofrimento maior. A dor de suportar sentado na cadeira do dentista é em geral necessária para poupar o indivíduo de sofrimento e dor ainda maiores.
Um pouco de dor é usado por Deus para obter nossa atenção moral. Da mesma forma que um pai que ama o filho e o disciplina para chamar-lhe atenção, Deus também age.
Propósitos para a dor:
Desenvolver o caráter;
Ensinar conseqüências morais;
Advertir de perigos iminentes;
Evitar sofrimento maior e
Obter a nossa atenção moral.
Por que há tanto mal e sofrimento?
Por que tantas pessoas experimentam dor e sofrimento? Por mais terrível que seja ver um indivíduo sofrer o máximo de dor possível, ainda reflete o fato de que a dor e o sofrimento são limitados à experiência de uma só pessoa e somente enquanto essa pessoa está sofrendo. A dor pode ficar insuportável quando não há ninguém por perto que verdadeiramente entenda e possa se relacionar com o sofredor. A intensidade do sofrimento é, com efeito, diminuída quando mais de uma pessoa o experimenta.
Por que as inundações, os furacões, o câncer, a AIDS etc?
O teísmo cristão não afirma que Deus tenha criado o melhor mundo possível. Mas afirma que Deus criou o melhor meio para o melhor mundo possível. Nesse melhor meio para o melhor mundo possível, o mal físico resulta tanto direta como indiretamente das leis que regem o universo físico e das decisões dos agentes morais. Deus criou o mundo de modo que as leis naturais operem para o benefício global da humanidade. O mal natural pode resultar do entrelaçamento dos sistemas no continuum espaço-temporal. Onde quer que duas ou mais coisas venham a competir no mesmo lugar e no mesmo tempo sempre haverá conflitos.
À medida que o relâmpago viaja através do ar, produz óxido nítrico (uma forma de fertilizante). Isso é bom porque a chuva vai derramar óxido nítrico(fertilizante) e ajudar a produzir relva e colheitas sadias. Contudo, o mesmo relâmpago algumas vezes atinge pessoas ou edifícios e outros objetos, o que poderia causar um mal físico.
Nenhum desses males subprodutos é conseqüência planejada do processo natural, mas todos eles são a conseqüência necessária da realização de outros bens naturais.
As conseqüências das escolhas livres dos agentes morais são outra causa do mal físico. O princípio da solidariedade humana de maneira negativa. Dois adultos se relacionam, sendo um deles casado e com filhos. Toda família será afetada. Outros exemplos de solidariedade da humanidade são as doenças sexualmente transmissíveis, o uso de drogas e álcool, a pornografia etc. independente da causa, o efeito das escolhas individuais na sociedade como um todo foi, e continua sendo, devastador.
De acordo com a Segunda Lei da termodinâmica tudo no universo está em estado de deterioração crescente. Isso inclui os organismos vivos. Portanto, à medida que o tempo aumenta, também aumenta a deterioração.
Segundo o teísmo cristão quando Deus criou os primeiros seres humanos, eles eram geneticamente puros. Depois de terem preferido romper a relação com Deus, as conseqüências de sua escolha livre foram a deterioração progressiva de todo reino físico, até o próprio corpo deles.
Dos primeiros seres humanos até os que vivem hoje, muitas distorções de cópias e erros aconteceram. Junte este fato à deterioração sempre crescente do ecossistema e vai com todo tipo de dificuldades genéticas que podem resultar em várias aflições físicas.
Deus permitiu que este mundo fosse ocupado por seres espirituais maus com livre arbítrio. Alguns males físicos resultam da livre escolha dos seres espirituais maus. Enquanto houver seres livres (humanos ou espirituais) comentendo atos maus, haverá conseqüências morais e/ou físicas sobre este mundo causadas pelo comportamento deles.
Apenas o teísmo bíblico pode explicar adequadamente a presença do mal neste mundo. O mal físico é essencialmente ligado ao mal moral. O mal moral é o melhor meio de produzir um mundo moral idealmente perfeito. O mal físico é necessário por diversos aspectos: é condição, conseqüência, componente, e advertência num mundo moralmente livre. O mal não determinado direta ou indiretamente pela liberdade humana é atribuído aos espíritos maus.
Foi um Deus soberano que permitiu à humanidade exercer a liberdade. Deus soberanamente desejou que os seres humanos tivessem controle sobre suas próprias decisões morais. Em fazendo assim, ele providenciou para o bem maior, mas também nos deu o poder de cometer atos maus.
Deus pode ser soberano e ainda assim permitir a liberdade humana?
Kushner crê que Deus não está no controle de todas as coisas, por isso infere que a soberania de Deus não pode coexistir com a liberdade humana e vê a liberdade humana como a desistência de Deus de exercer seu controle no mundo.
A autodeterminação não é contraditória nem irresponsável. Um homem é responsável pelo que ele vem a ser pela escolha moral. Isso significa que ele é responsável por sua própria livre determinação moral… Deus determinou que o homem fosse uma criatura com autodeterminação.
O Soberano fez o homem soberano sobre o próprio destino moral. Não obstante, Deus está no controle de todo esse processo porque: 1- Deus por sua própria presciência vê o que a liberdade fará e pode produzir um bem maior dela; 2- Deus está no controle soberano do fim em que as escolhas livres dos homens se transformarão permanentemente de acordo com a própria vontade deles.
Em resumo, Deus(a causa primeira) está operando na autocausalidade da liberdade humana (a causa secundária) e por meio dela para produzir o maior número (a causa fina) de acordo com a perfeição absoluta de Sua própria natureza (a causa exemplar).
Deus é o único ser totalmente livre e independente que existe, todos os seres humanos são dependentes e contingentes de sua própria natureza.
Entretanto, Deus terá a palavra final nessa situação, como em todos os assuntos! Como sempre, Jesus submeteu-se ao plano de seu Pai e obedeceu à autoridade terrena sobre ele.
Contudo, visto que Deus é soberano sobre todas as coisas, ele tem a palavra final, e havia decretado desde a eternidade que Jesus ressurgiria dos mortos três dias depois de ser crucificado.
Tanto a soberania de Deus como a responsabilidade dos seres humanos existe sem contradição.
A chave de tudo isto é que Deus esta fora do tempo, mas pode agir no tempo. Deus usa as escolhas livres dos seres humanos para cumprir os seus propósitos. Mesmo quando as pessoas más cometem atos cruéis e injustos livremente, jamais podem obstruir os propósitos de um Deus soberano.
Um homem misericordioso deseja o bem do seu próximo e desse modo faz “a vontade de Deus”, cooperando conscientemente com “o bem simples”. Um homem cruel oprime seu próximo e assim faz o mal simples. Mas fazendo esse mal, ele é usado por Deus, sem seu o seu próprio conhecimento ou consentimento, para produzir o bem complexo – de forma que o primeiro homem serve a Deus como filho, e o segundo, como uma ferramenta. Você certamente vai cumprir o propósito de Deus, não importa como aja, mas para você faz uma grande diferença servir como Judas ou servir como João.
Como o autor definiu em sua conclusão Deus tem a capacidade de intervir se e/ ou quando ele determina. Se decidir não intervir, podemos presumir que ele está permitindo que o mal persista a fim de alcançar um bem maior, mesmo que não tenhamos nenhum conhecimento do bem maior. Além disso, Deus é capaz de redimir as nossas más escolhas, ou o mal que os outros escolhem que façamos, como parte do seu plano soberano de produzir um bem maior.
Essa vitória sobre o mal é tema central da mensagem cristã, conhecida como evangelho ou boas-novas.
Para os ateus, o mal é meramente problema de ignorância humana, e a resposta ao problema é a educação.
Para os panteístas, o mal é uma ilusão e não precisa de nenhuma solução, porque não é um problema real.
O teísmo cristão reconhece que o mal está ancorado em cada coração humano e se manifesta num estilo de vida centrado no eu.
Diante de tudo isso o que Deus quis dizer em IS 45.7
“eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o senhor faço todas estas coisas.”
Bibliografia:
- Manual de Defesa da fé : Peter Kreeft
- Bíblia de Estudo Genebra
- Wikipedia